
A alegria é a nossa evasão do tempo |
| (Simone Weil) |
Não desenhamos uma imagem
ilusória de nós próprios, mas
inúmeras imagens, das quais
muitas são apenas esboços, e que
o espírito repele com embaraço,
mesmo quando porventura haja
colaborado, ele próprio, na sua
formação. Qualquer livro,
qualquer conversa podem
fazê-las surgir; renovadas por
cada paixão nova, mudam com
os nossos mais recentes prazeres
e os nossos últimos desgostos.
São, contudo, bastante fortes
para deixarem, em nós,
lembranças secretas que crescem
até formarem um dos elementos
mais importantes da nossa vida:
a consciência que temos de nós
mesmos tão velada, tão oposta a
toda a razão, que o próprio
esforço do espírito para a captar
a faz anular-se.
Nada de definido, nem que nos
permita definir-nos; uma espécie
de potência latente... como se
houvesse apenas faltado a
ocasião para cumprirmos no
mundo real os gestos dos nossos
sonhos, conservamos a
impressão confusa, não de os ter
realizado, mas de termos sido
capazes de os realizar. Sentimos
esta potência em nós como o
atleta conhece a sua força sem
pensar nela. Actores miseráveis
que já não querem deixar os seus
papéis gloriosos, somos, para nós
mesmos, seres nos quais dorme,
amalgamado, o cortejo ingénuo
das possibilidades das nossas
acções e dos nossos sonhos.
André Malraux, in 'A Tentação do Ocidente'